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domingo, 7 de fevereiro de 2010

Imaginação

Por Rodrigo Urban
Estou sentado em uma praça no centro. Cidade arborizada. Um velhinho me observa enquanto descansa no banco com seu pesado fardo. Comida, leite e preocupação para casa. Com dificuldade ele levanta e sobe a avenida.
Um rapaz um tanto estranho se aproxima com uma mochila. A calça de tactel presa na meia e ao sapato preto de cadarço camurça, além da surrada camiseta verde dois números maiores que o dele, deixam seu aspecto confuso. Uma cara de poucos amigos e olhar vago denunciam seu estado de loucura. Comendo o pão com mortadela que retirou da sua mochila ele continua a me observar.
Ao chegar ao centro perguntei em uma padaria sobre um banheiro. Indicaram-me uma praça próxima, na margem oposta da rua que observo agora. Uma escadaria acinzentada, longa e alta, com gramíneas e árvores esparsas em volta. Ao subir a escada me deparo com a estrutura daqueles pequenos parques de diversão comuns ao interior paulista. Os carrinhos de bate-bate se destacam pelo colorido característico.
Ainda na praça travestida de parque de diversões olho para o lado esquerdo e observo uma pequena estrutura de concreto com um portão férreo enferrujado. Uma pequena inscrição "ELE" denuncia a utilidade do local. Entro e posso observar uma longa escadaria que faz uma suave curva à direita. Carrinhos de pedreiro, pás e sujeira marcam o muro limítrofe do local. À direita existe uma porta de madeira. O odor acre não deixa eu me enganar, estou indo para um banheiro.
O banheiro era estranho. Comum à primeira vista, apresentava várias poças com fluidos não identificáveis no chão, uma longa pia recoberta de azulejos com uma torneira apenas e problemas no encanamento. Um banheiro público brasileiro. Existia também alguns exemplares do objeto denominado "mictório" com água escorrendo constantemente de pequenos orifício localizados na porcelana. Particularmente acho os "mictórios" nojentos. Passei em frente às cabines e não encontrei vasos sanitários. Teriam depredado o lugar?
Com um pouco de coragem e evitando ao máximo possível pisar nas poças entrei em uma das cabines. Em meio às paredes pichadas e pedaços de jornal jogados no chão percebi porque não vira vaso sanitário. Eles não existiam. O local construído para satisfazer as necessidades humanas de eliminação de impurezas consistia em um buraco no chão envolto com uma peça cerâmica desnivelada e inclinada em sua direção e um cano que insistia em gotejar águia no mesmo. Também havia uma estrutura emborrachada para posicionar os pés. Tudo no nível do chão. Era um banheiro estranho.
Agora, saciada sua fome, o cara de louco se levantou e foi embora. Ao menos poderia ter se despedido.
Vou ler Edgar Allan Poe neste momento para balancear o tempo aberto, claro e feliz com um pouco de sonhos, sombras e escuridão. A vida sempre necessita de opostos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Samba só (provisório)

Por Rodrigo Urban

Eu queria te dizer
A vida não é assim tão fácil.
Eu queria te dizer
De tudo eu não sou o culpado.
Quem dera eu tivesse
Algo em que me segurar.
Quem dera eu não fosse um alvo
Que os erros insistem em acertar.

Eu queria te dizer
A vida não é assim tão fácil
Eu queria entender
E agora o que é que eu faço.
Não sei nao entendo isso tudo
Tudo isso pelo que eu passo.
E o pior dessa história
É saber que a vida não é fácil.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Passeio noturno naquele lugar

Por Rodrigo Urban

O tremular da bandeira.
O andarilho calmo, solitário.
O som do jato d´água.
O surdo som de meus passos.
A calma atormentadora,
Estranha.
O vento gelado em meu rosto
A quietude do que se movimenta...
De dia.
Estrelas no céu a me observar.
O silêncio gritando,
Chamando,
Pedindo...
Para fazer-lhe companhia.
A beleza da ausência fria
Contemplando aquele alto lugar
A calma onde ela não existe.
Como é bela, a solidão.
Como é triste, a solidão.
Como é comum, a solidão...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Nao aprendemos com o tempo (texto de 2003)

Por Rodrigo Urban

Passados anos, décadas, séculos e milênios
E o homem náo aprendeu com o tempo.
Somos corruptos, agressivos e sabemos:
O homem nao aprendeu com o tempo...
A miséria é grande, nao nos preocupamos.
O homem nao aprendeu com o tempo.
Mentimos, roubamos e também matamos.
É... o homem nao aprendeu com o tempo.

Pensamos qual a soluçao,
seria ela usar o coraçao?
Poderíamos usá-lo junto com a razao?
A humanidade suportaria tal evoluçao?
Será que sim, ou será que náo?

Guerras de hoje e de tempos atrás.
O homem nao aprendeu com o tempo.
Movidos por cobiça, ganância e mais!
O homem nao aprendeu com o tempo.
E a cobiça domina a cabeça dos "Senhores"
O homem nao aprendeu com o tempo.
E a guerra prenunciada nos dá temores.
Realmente o homem nao aprendeu com o tempo...

Pensamos qual a soluçao,
seria ela usar o coraçao?
Poderíamos usá-lo junto com a razao?
A humanidade suportaria tal evoluçao?
Será que sim, ou será que náo?

Uma sociedade enganosa.
Rodando, girando no tempo.
A humanidade nao aprendeu, minha nossa!
Defeitos nao curados pelo tempo.
Apenas nossos atos podem corrigí-los.
Nao esperemos que tudo de resolva com o tempo...
Porque no fundo todos sabemos...
O homem nao aprendeu com o tempo!

Pensamos qual a soluçao,
seria ela usar o coraçao?
Poderíamos usá-lo junto com a razao?
A humanidade suportaria tal evoluçao?
Será que sim, ou será que náo?

Precisa-se tentar (texto de 2004)

Por Rodrigo Urban

Nao sei como lhe pedir
Mas sei que posso tentar
Faço um esforço,
Miro o olhar,
Arrumo palavras
Mas nao consigo me expressar!
Espere! Nao vire as costas,
Nao sabe como é difícil...
Querer e nao poder...
Falar...

sábado, 7 de junho de 2008

Aniversário

Por Rodrigo Urban

Parabéns pra você, nesta data querida...
Desde quando a humanidade comemora aniversários? Eu não sei, mas o importante é que faz muito tempo.
Mas porque comemorar/considerar essa data tão importante? Existe toda uma simbologia por trás dela, é o dia do nascimento; é um marco de passagem na vida; é a comemoração de mais um ano completo; é mais um dia para se ganhar presentes...
Porém, se pensarmos melhor, o aniversário não passa de um dia comum. Um dia com nascer e pôr-d0-sol, um dia em que o mundo continua a girar, um dia que as árvores continuam a fazer fotossíntese e os animais continuam a se alimentar. Um dia perfeitamente comum, sem nada especial, sem nada fantástico.
Nos aprofundando um pouco mais percebe-se que nem ao menos é a comemoração anual do nascimento a que se propõe. Se considerarmos os anos bissextos e os segundos a mais dos dias 31 de dezembro vemos que fazemos festa nos dias errados! O dia de um mês de 2008 nao tem uma diferença de um ano para o mesmo dia do mesmo mês de 2009.
É possível afirmar, então, que comemoramos um dia comum qualquer todo ano, sem sentido concreto algum.
Mas tenho que admitir...
Me vem sempre aquela ansiedade infantil na véspera e eu experimento os mais diversos sentimentos nesse dia comum que chamam aniversário. Você não?

"Feliz Aniversário!"

domingo, 1 de junho de 2008

Sem título (texto com alteraçoes de 2003)

Por Rodrigo Urban

O mundo repleto de obrigaçoes
Tantas obscuras frustraçoes
As regras, as dúvidas, o medo
Começando cada vez mais cedo!

Dando-se intensas extinçoes...
do pensamento, tao cedo!
Dormir e acordar sem medo
É o mais claro desejo dos coraçoes.

Tantos segredos e ilusoes
A humanidade em prantos
Emitindo velhos chavoes.

Nada de beleza ou encantos,
Todos perdidos sem emoçoes
Sem lembrar dos antigos cantos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O mundo está triste (texto de 2003 - proposta escolar)

Por Rodrigo Urban

Trabalhamos toda vida,
doamos nosso sangue,
quantos sacrifícios pelos mais jovens!
Mas nao somos eternos. Quem dera!
Passamos pelo nascimento, pela infância,
pela maturidade e... onde estamos agora?
Perdidos, sem ocupaçao,
sem carinho, sem esperança.
Total desconfiança alheia e a nossa existência recompensada...
com descaso, solidao.

Tratam-nos como inúteis,
nao somos, nunca fomos!
Mas agora...
calados, sem nossas antigas forças
choramos.
Nao queremos demais,
nao precisamos de muito,
respeito, compaixao...
nao custam caro, na trazem dor.

A nossa dignidade nao subjulga ninguém,
nao é esse o intuito,
nao existe porque recusá-la, ter receio.
Por quê nao ajudar alguém viver?

O retorno da esperança,
do carinho, do amor
é o que todos necessitamos.
É o que o mundo necessita,
para se alegrar novamente.
E para que a denominada terceira idade nao seja...
apenas uma transiçao dolorosa...
entre a vida e a morte.

Mas por enquanto o mundo ainda está triste.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O que eu devo fazer? (texto de 2002)

Por Rodrigo Urban

Eu acho que eu sei de tudo,
mas há uma nuvem na frente do sol.
Sua sombra escurece o fundo,
o fundo da minha mente,
e essa escuridao na me deixa
mais pensar claramente.
Agora nao sei o que eu vou fazer,
agora o que irá acontecer?

Boca e ouvidos fechados,
Meus olhos estao embaçados.
Quando eu vou entender,
o que eu devo fazer?

Nao tenho um caminho pra prosseguir,
nao tenho um horizonte pra olhar,
nao sei para onde eu devo ir,
na escuridao nao consigo andar!
Estou perdido nas sombras,
inativo sem imaginaçao,
me comparo até aquelas
goatas de água dispersas no chao!

Boca e ouvidos fechados,
Meus olhos estao embaçados.
Quando eu vou entender,
o que eu devo fazer?

Essa situaçao,
nao sei com eu posso mudar!
As portas da vida estao fechadas,
e eu nao conheço um modo de entrar.
Perdido na sombra daquela nuvem,
que cobriu o sol para mim!
Quando eu ainda achava,
que sabia tudo, enfim!

Boca e ouvidos fechados,
Meus olhos estao embaçados.
Quando eu vou entender,
o que eu devo fazer?

Quando eu vou entender,
o que eu devo fazer?
Quando eu vou entender,
o que eu devo fazer?

Tempo (texto de 2002 com alteraçoes)

Por Rodrigo Urban

Tempo, voce o ata?
Tanto tempo e sem tempo nenhum.
Cavo o tempo, procuro e tento,
mas nao acho...
tempo pra mim.

Invejo a ave, no seu ato de voar,
livre,
sem perceber o tempo passar.
E canto, pedindo ao vento
"Por favor dê-me de presente...
o tempo!"

terça-feira, 13 de maio de 2008

Crônica da Separação

Por: Maria Ligia Ueno


Às vezes a vida é o que não parecia dever ser. E nos acomodamos de tal forma que não percebemos que ela passa e leva embora nossos sonhos, nossas alegrias. Nisso formam-se chagas incuráveis que hão de sangrar eternamente mesmo que a dor do punhal perfurando as entranhas passe. E o sangue, mais rubro que o próprio sol, corrói a pele pelos poros até que a própria pele se torne sangue, um sangue incolor e salgado que deságua em forma de amor até o coração. Às vezes a vida leva o que nos era de melhor para um mundo oblíquo, e o rastro desse arrastar de ponteiros e passos fica cravado a ferro na nossa mente, para jamais ser esquecido, apesar de nunca ser lembrado.E o nosso melhor deixa o vazio em seu lugar, e este toma forma e corpo, aumenta de densidade e vai se apoderando do todo; e quando chega nas lembranças mais ternas e pueris se desfaz, em risos entre prantos, em sorrisos entre lágrimas, em amor em meio a dor. Às vezes a ausência é o único caminho para a presença; que é quando se sente quando não se há, quando se abre ao se fechar, quando a desfeita é uma feita transversa. E nesse ponto a única solução é a solidão, para evitar que se fique solitário; então há a evocação... e a partir daí apenas o adeus é benvindo e celebrado, apesar da dor aparente, sua razão é pelo amor, mais puro do que nunca, quando supera a si próprio abraçando o altruísmo egoísta, que é quando o seu melhor para a ser o melhor do outro.

domingo, 30 de março de 2008

Nostalgia

Por: Luiz Augusto Manfré

queria poder fechar os olhos e voltar,
sentir o gosto dos bons momentos,
ou mesmo dos maus,
queria poder voltar no tempo,
para refazer tudo do mesmo jeito,
para reviver as alegrias,
sofrer as tristezas,
sentir a presença dos que já não estão mais ao meu lado,
o futuro assusta,
o presente me confunde,
e o passado me conforta,
pois dele já sei tudo.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Auto-crítica

Por Luiz Augusto Manfré

Todos esses pensamentos e tentativas de auto-compreensão são muito confusos ainda. Talvez essa busca por entendimento próprio seja devido à necessidade de satisfazer à segundos. Talvez não esteja me esforçando pra me entender, talvez apenas esteja tentando me justificar, esteja buscando maneiras alternativas de satisfazer aos questionamentos dos outros. Mas por que, afinal de contas? Será que a necessidade de agradar aos outros é tão maior que a necessidade de auto-conhecimento? Por que será que as nossas vidas dependem tanto de relacionamentos com os outros? Preisamos tanto nos manter em um nível agradável aos outros, que, em certos momentos, usamos máscaras que não nos agradam e muitas vezes não nos servem, não encaixam em nossas faces e nem mesmo combinam com nossas personalidades, mas as usamos. É necessário, para formalizar nosso contrato de convivência com nossos "semelhantes". Nesse contrato, não devemos agir de acordo com nossa conveniência, mas sim de acordo com padrões pré-estabelecidos pela "lei" vigente no momento.
E, é dessa forma que mostramos à todos, como somos agradáveis, como somos dóceis, como somos gentis e como não somos sínceros e verdadeiros. Não me orgulho ao admitir que assinei o contrato e vivo de acordo com a necessidade e me adapto aos momentos. Não possuo uma face, mas várias. E, cada face me fornece, não apenas uma aparência diferente aos olhos e opiniões alheias, mas também me fornece olhos que enxergam de formas diferentes, vozes com tons e palavreados diferentes, e até mesmo uma consciência diferente que pressupõe necessidades e atitudes distintas, de acordo com a necessidade, não a minha, mas a dos demais sigantários do contrato. Parafraseando Freud em sua mais célebre "verdade", e a dita terceira maior ferida no orgulho da humanidade, "O eu não é senhor na própria casa", e assim vivem todos os declarados sãos, às vistas da sociedade e dos grande especialistas em pensamento. Não esprava chegar à essas conclusões quando comecei a escrever este pequeno ensaio, acredito que essas sejam minhas verdades, minhas noções à respeito das atitudes humanas.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A Casa

Dezembro/2000

Fábio andava pela rua. Olhava os sulcos da calçada e as nuvens no céu. Não se decidia para onde olhar. Mas naquele momento algo lhe chamou a atenção. Era verde, não azul, ou seria amarelo? Tinha dois, não três olhos grandes e brilhante, ou seriam pequenos e opacos. Tudo muito confuso, mas de uma coisa ele tinha certeza, estavam o olhando, o perseguindo, o chamando da janela daquela casa que nunca ninguém ousou entrar. Da casa da rua das Flores, número 157.
Mesmo após dormir Fábio não conseguia parar de pensar naquela estranha visão da tarde, os olhos o chamavam, o chamavam, o chamavam, continuavam chamando. Ele podia sentir, estavam o chamando agora. Nunca, em seus longos 17 anos de vida tinha sentido algo tão forte. Ele precisava levantar de sua cama e ir atrás daqueles olhos.Levantou. Saiu de casa deixando a porta aberta, para ninguém acordar com o barulho da chave trancando, sabia como sua mãe tinha o sono leve.
A casa que ninguém nunca havia ousado entrar ficava a três quadaras da sua. Eram meia-noite não duas.. ou seriam três da manhã? Não importava, Fábio corria em direçao à sombria casa.
Enquanto corria vinham à sua mente imagem dos olhos que o chamavam. Chegavam imagens da sua infância, que também eram sobrepostas. Tudo isso era muito estranho mas Fábio não se preocupou em desvendar seus pensamentos, apenas em chegar à casa.
Chegou. Ele a olhava, ofegante, e feliz, ou estaria triste?
A porta estava aberta mesmo a casa estando abandonada há anos. Mas a porta estava aberta. Fábio olhou para dentro. Parou, pensou, e passou do pequeno portão cinza e antigo. Atravessou o pequeno quintal, com três passadas, ou teriam sido mil, não sabia mais.
Chegou à porta. Olhou para dentro e viu uma pequena escada. Aqueles olhos estavam o chamando lá de cima. Ac asa teria quantos andares. Não se lembrava mais. Tomado de dúvida, alegria, desespero e uma irracional vontade, Fábio foi em direção à escada.
Um estrondo! A porta então se fechou. A rua estava deserta ninguém viu ou percebeu o que aconteceu.
Fábio não compareceu à sua formatura. Depois daquele dia nimguém nunca mais o viu.

domingo, 2 de setembro de 2007

Dúvida

Por Rodrigo Urban

Esverdeada relva aos meus pés,
Criada A partir do nada,
Feita A partir de tudo,
Sustentas o meu corpo,
Caído, ansioso por respostas,
Ansioso por soluções, por explicações,
Por ouvir certas opiniões.
Tentes me dizer,
Do que tu és feita,
Do que sou feito.
E pensas: vale apena,
Esconder segredo tão profundo,
Tão importante para o mundo,
De mim, um simples vagabundo?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Escuro

Por Rodrigo Urban

Quando o rio vira mar.
Quando o som está no ar.
Se a vida passar,
Sem ninguém notar.
Eu posso falar,
Eu posso gritar,
Eu vou estar...
Sozinho no escuro

Tão só,
Fadado a falar.
Somente gritar.
Quando ninguém notar
Que o som está no ar,
Que o rio vira mar.
Eu vou estar...
Acompanhado no escuro.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Sofrimento - parte 4

Por Rodrigo Urban

A noite começava a cair. E Francisco não se agüentava mais de pé. Esforçava-se ao máximo para andar. Viu então algo que lhe deu forças, fez até mesmo esquecer a sede e a fome. Apertou o passo, quase corria. À sua frente a interminável subida parecia acabar, via-se uma espécie de topo, onde parecia que se iniciaria uma descida. Tinha certeza que era isso, não havia nada mais acima. Melhor tinha certeza que havia civilização logo ali, no começo da descida. Já podia escutar sons, ruídos, de pessoas falando, de carros passando, sentia até mesmo o cheiro de comida sendo feita. Comida para ele. Chegou ao topo.
Francisco caiu de joelhos ao chão. Impossível. Todas as dúvidas voltaram em um relance à sua cabeça. Quem eram seus pais, tinha pais? Onde trabalhava? O que estava fazendo ali, não sabia mais. Por que tudo o que ele viu tinha seu nome? Quanto tempo havia se passado, não fazia a menor idéia. O quê era aquilo à sua frente, o quê?
Olhou novamente para frente, um imenso vazio. A escuridão era total. Talvez um imenso abismo, talvez o nada absoluto. Onde ele estava de verdade? Começava a cair aos poucos no chão, apoiou os braços. O que fez até aqui? Deitou-se no chão. O vazio emitia os sons de uma cidade. O quê era isso? Quem era ele, realmente não sabia. Reuniu suas últimas forças, e apoiado nas suas últimas dúvidas ergueu-se e lançou-se naquele vazio no seu próprio vazio.

- Carlinhos volte aqui – chamava desesperadamente a mãe do menino, que corria sozinho na frente do grupo, sua mãe, seu pai, dois tios e o avô. O pequeno menino parou de repente atônito. Seu pai logo correu para ver o que acontecia. Um corpo jazia à beirada do riacho que corria no terreno plano. O grupo se chocou, não sabiam quem era, mas viam a dúvida e o desespero no rosto dele. Um dos tios correu para chamar o segurança do Horto da cidade. A mãe carregava Carlinhos, e acompanhava o resto dos visitantes para o carro, estava perto, afinal o Horto era extremamente pequeno. Esperaram o tio que faltava e partiram calados. Antes de ir passaram por um carro popular com os pneus murchos parado no estacionamento, ao lado de um caminhão de mudanças, podia-se ler no adesivo colado no vidro lateral do carro: “Tenho orgulho do meu nome comum: Francisco”.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Sofrimento - parte 3

Por Rodrigo Urban

A posição de Francisco começava a se tornar excessivamente desconfortável. Resolveu levantar a cabeça. Ao olhar para frente seu semblante melhorou muito. Sentia-se disposto e vivo outra vez. Esfregou os olhos para ter certeza do que via, era difícil de acreditar. Olhou outra vez para frente e contemplou a linda montanha que buscava quando saiu da cidade. Estava a pouquíssimos quilômetros de distância. Era de um tamanho médio, mas impunha respeito. Sua costa era de um verde absurdamente natural, vindo da vegetação provavelmente nunca tocada. Acelerou o carro, não podia ver a hora de chegar até ela.
Durante o curto trajeto, Francisco se indagou por que não havia reparado na montanha antes. Havia se desesperado no mesmo local que observou a montanha, mas tinha certeza que não havia nada à sua frente. Não, ele estava nervoso demais, a luz tinha ofuscado sua vista. Montanhas não aparecem do nada. Era isso, não tinha percebido antes, só isso.
A estrada acabou. Estranho, terminava no sopé da montanha, e não havia caminho nela para prosseguir a viagem. Francisco desceu do carro, extremamente confuso. Parou em frente a montanha, a observou. Não tinha idéia do que fazer. Não ficara nervoso, porque o fato era estranho demais, ficava nervoso com coisas que tinham explicação e isso, decididamente, não era fácil de se explicar.
Começou a andar de um lado para outro. Olhava para a montanha, olhava para o lado oposto, onde não havia nada. Algo chamou sua atenção. Andou um pouco à esquerda do fim da estrada. Existia uma trilha, um pouco coberta pela vegetação, é verdade, mas era o único caminho que poderia seguir. Sem pestanejar se embrenhou na mata, nem pensara em pegar algo no carro que pudesse precisar, ou trancou o mesmo. Seguia sem rumo, pela estreita trilha que encontrara.
Havia horas que andava. Estava com fome. O sol castigava seu corpo, que respingava suor por todos os lados. O pior é que não se lembrava de passar calor durante a viagem de carro, pelo contrário, recordava-se de um tempo razoavelmente frio. Olhou para os lados, não havia algum sinal de vida animal, um ruído, uma pegada, um piado, nada. Era desolador. Lembrou-se novamente da fome, também não havia um fruto em qualquer árvore a sua volta. Por sinal todas as árvores eram tão parecidas, altas, mas não cobriam o sol, não sobrava espaço para seguir dentro da mata, eram todas muito próximas, ficava muito fechado. Os galhos eram de um tom marrom muito escuro, retorcidos, mas não chegavam a ser sombrios. Mas não podia perder tempo agora, morria de sede e fome. Precisava chegar a algum lugar rapidamente. Prosseguiu a viagem.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Sofrimento - Parte 2

Por Rodrigo Urban

Anoiteceu e Francisco, já cansado e mais confuso e irritado do que antes, gritou com o máximo de sua força:
- Onde está a maldita montanha!
Francisco então freou o carro e, após melhor observar o ambiente ao seu redor, espantou-se. Viu um terreno árido e morto, não havia uma planta, uma construção sequer, tudo iluminado por um único poste de luz sem fios. Intrigante, ele tinha dirigido na mais total escuridão até aquele lugar, olhou para trás e confirmou que não havia nenhum feixe de luz aparente. Abriu a porta do carro e saiu. Estava muito frio. Olhou para dentro do carro. Não havia blusa de frio lá dentro, irritou-se e chutou com violência o pneu do carro. Sentiu então um calafrio horripilante. Paralisou-se e, sem razão aparente, tremendo, entrou de volta no carro e trancou a porta do carro. Pensou em dirigir, mas ao reparar na escuridão total à sua volta decidiu passar a noite ali mesmo. Afinal havia luz. Olhou o poste e imaginou que os fios deveriam estar sob a terra, claro. Tentou não pensar em mais nada, só que se lembrou que desde a cidade não vira nenhum veículo, muito estranho. Dormiu.
Francisco acordou com a ofuscante luz solar batendo em seu rosto. Que horas seriam? Olhou o pulso. Não havia relógio, e seu carro não tinha rádio. Bateu a cabeça no volante três vezes. Escutou um estrondoso ruído, olhou para o lado e viu um gigantesco caminhão passando em altíssima velocidade. Alegrou-se e leu na traseira do caminhão: “Seu Chico mudanças”. – Bom um xará - pensou. Tentou dar a partida, mas o carro não pegou. Pensava em seguir o caminhão, o único sinal de vida desde que ele saíra da cidade. O caminhão sumiu no horizonte. Respirou fundo e virou a chave, o carro pegou. Esmurrou o painel, e pisou no acelerador, com tanta raiva e força como da primeira vez.
Começava a sentir sede ao extremo, não havia nada naquele caminho tortuoso, já haviam passado horas desde que havia visto o caminhão, mas não alcançara nenhum local onde ele poderia ter parado. Não era possível, a velocidade que Francisco estava dirigindo superaria qualquer caminhão, onde estaria aquele que ele observara antes? Pisou com violência no freio. O carro parou com os pneus emitindo um chiado atormentador. Não sabia mais no que pensar, começava a entrar em desespero. Abaixou a cabeça. Ficou assim por um bom tempo.

sábado, 19 de maio de 2007

Sofrimento - parte 1

Por Rodrigo Urban

Francisco verificou os pneus e conferiu o nível do óleo do carro. Tudo em perfeitas condições. É quarta-feira, dia difícil para Francisco, após muitos anos de trabalho árduo havia sido despedido. Precisamos cortar gastos disseram, pro inferno com eles, hipócritas não souberam valorizar seu trabalho, seu esforço, sua vida. Extremamente inconformado e irritado voltara para casa, planejou uma viagem para as montanhas perto de sua casa, sem esposa ou filhos não tinha com quê se preocupar. Avisaria seus pais depois. Eles moravam longe.
Entrou no carro e bateu forte a porta. Da rua observou sua pequena casa, velha com furos e remendos no telhado, janelas quebradas e aspecto de abandono, era incrível pensar que em mais de trinta anos de trabalho só havia conseguido aquilo. O estado deplorável do seu único bem se devia ao serviço, claro, não tinha tempo para nada, quando iria consertar a casa? Esses pensamentos inundavam a mente de Francisco de ira e desespero, descontou no pedal do acelerador, não estava preocupado com multas de trânsito, só queria sossego.
Atingiu cento e quarenta quilômetros por hora, ao passar pelo limite da cidade freou, o carro popular, gasto e judiado pelo tempo derrapou, girou, inverteu sua direção, ficando assim, de frente para a placa da cidade onde se podia ler, com letras grandes, mas não bem feitas: “Bem Vindo a São Francisco da Prosperidade”, Francisco não pode deixar de pensar na infeliz coincidência, afinal pra ele aquela cidade não havia sido nada santa, muito menos próspera. Deu a volta e prosseguiu seu caminho.
Após pouco tempo de viagem já podia observar as montanhas que rodeavam a cidade e pensou em um fato curioso: não se lembrava de ter alguma vez saído da cidade, mas ele não nascera lá, afinal seus pais moravam longe e nunca haviam o visitado. Agora que pensou nos pais, quem eram eles? Não se lembrava de suas feições, ou de algo que porventura teriam feitos juntos, um jantar, um almoço, qualquer coisa. Por mais que se esforçasse não se lembrava, e para piorar conforme ia se aproximando do sopé da montanha sua cabeça era invadida por cada vez mais questões sem respostas aparentes, como: qual era o nome da empresa que ele trabalhou por tanto tempo, não se recordava, assim como também não se lembrava da função que exercera lá e nem de seus colegas de trabalho. Todas essas indagações eram extremamente estranhas e deixavam Francisco cada vez mais confuso conforme o tempo ia passando.
Francisco parou o carro, observava a fonte de água brotando da mais pura rocha, com uma escassa vegetação em volta. Observando melhor ele viu que o local na verdade era um imenso paredão rochoso na beira da estrada, e percebeu que lá não era um bom local para estacionar, afinal um caminhão poderia passar e ocasionar um acidente. Molhou rapidamente o rosto no fino fio de água que escorria e logo entrou no carro. Pisou no acelerador, agora com menos raiva e força do que na saída da cidade, mas mesmo assim atingiu uma velocidade considerável.